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João Salgueiro acredita que Portugal pode estar perto de um período de "grande expansão"

O economista João Salgueiro disse hoje que Portugal pediu ajuda nas vésperas de deixar de ter dinheiro para importar trigo e considerou que o país está agora mais perto de uma época de "grande expansão" se seguir o exemplo de Espanha ou Irlanda.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

"Se o Governo tivesse pedido ajuda seis meses antes teria negociado com mais rigor, assim foi só saber o que precisávamos de fazer para mandarem o dinheiro, porque estávamos em vésperas de não poder importar combustível ou trigo", afirmou hoje João Salgueiro, numa conferência na Livraria Ferin, em Lisboa. Segundo o responsável, Portugal precisa de "encorajar emprego e mais produção" e reconheceu que "a actual política de austeridade não faz isso". O problema, acrescentou, é que sem essas políticas "as refinarias iam deixar de trabalhar e o pão de se fazer".

João Salgueiro disse mesmo que, apesar dos sacrifícios pedidos, é "por obra e graça da 'troika' que Portugal está a fazer reformas adiadas há décadas", mas também considerou que é preciso um maior enfoque na "agenda da competitividade", acrescentando que há medidas "baratas" que podem ser tomadas, como criar condições benéficas para atrair as poupanças dos portugueses emigrados.

"Neste momento não temos condições para atrair poupanças e mesmo as dos portugueses vão para o estrangeiro. Nos anos 80, chegamos a ter 11% do Produto Interno Bruto (PIB) em remessas de emigrantes", afirmou o também ex-ministro de Francisco Balsemão.

Apesar do momento difícil que Portugal atravessa, em declarações aos jornalistas à margem do evento na Livraria Ferin, João Salgueiro recusou que Portugal esteja num impasse.

"Estamos perto de uma época de grande expansão se fizermos o que a Espanha e a Irlanda estão a fazer", disse, acrescentando que há condições para atrair investimento estrangeiro porque esta é "uma boa altura para entrar" em Portugal e porque o país pode ser uma porta de entrada na Europa.

João Salgueiro recusou qualquer comparação com a Grécia, afirmando que o país helénico está neste momento num impasse devido à não execução das reformas acordadas.

Ainda assim, se a Grécia entrar mesmo na bancarrota, "seria mau" porque "os mercados ainda levariam dois a três meses a perceber que Portugal não é a Grécia", considerou.

Ainda na conferência, João Salgueiro fez uma resenha da actual crise financeira e económica para "acabar com alguns erros", como a "versão politicamente correta de que se deve à crise bancária internacional, sobretudo americana", argumentando que na origem desta estiveram políticas públicas erradas.

O economista recordou que a entrada dos bancos dos Estados Unidos no 'subprime' aconteceu depois de as agências de financiamento norte-americanas Fannie Mae e Freddie Mac terem sido chamadas aos Congresso para "pedirem que fossem menos exigente nos critérios para financiar casa, sobretudo à população negra e hispânica".

Salgueiro sublinhou ainda a anulação legislação norte-americana que separava os bancos de investimento dos comerciais e a política da Reserva Federal que praticou taxas de juro demasiado baixas, aumentando o crédito à economia.

"Maior endividamento é um 'doping' financeiro à economia, está-se a encorajar o consumo sem haver produção", disse Salgueiro, adiantando que estas medidas tiveram efeitos nefastos que ajudaram à presente crise.

Ainda assim, para João Salgueiro os portugueses devem entender a situação presente "não como crise" mas como "mudança de vida". "Não é de sacrifícios que se trata, é de mudar de comportamentos", afirmou.

Para João Salgueiro, se a Europa quer manter a boa qualidade de vida que conseguiu tem de voltar a ser competitiva.

"Quem criou o modelo social europeu foi a vantagem competitiva da Europa permitida pela revolução industrial. As regalias do Estado social foram possíveis porque a Europa tinha competitividade", considerou João Salgueiro.

Jornal de Negócios 07/02/2012